O CERRADO E O MARANHÃO
Ao contrário do Piaui, o Maranhão possui uma história secular de significativo desenvolvimento econômico, malgrado tenha exibido crises cíclicas de grande impacto. Ao longo desse período sobressai a inserção internacional de sua produção. Ela remonta ao algodão e mesmo à indústria têxtil no século XIX, cujo epicentro foi a cidade de Caxias.
A produção de soja no território brasileiro é, desde o seu início, emblemática de todas as mutações relevantes ocorridas na Economia como um todo. Ela projeta, desde meados do século XX até hoje, todos os vínculos macroeconômicos que marcaram a indústria , a agricultura e o comércio exterior do Brasil.
Desde o seu incipiente início, quando estava vinculada ao trigo, a soja foi se tornando uma cultura autônoma, formando um universo tecnológico próprio no qual o forte apoio governamental esteve presente . Nunca é demais lembrar que a soja foi o produto que no início dos anos 80 carreou, mais que qualquer outro, o capitalismo para o campo. Projeção econômica dos anos do milagre econômico dos anos 70, a expansão da soja foi avassaladora desde então, ostentando modernas tecnologias e contanto com os incentivos de uma política econômica que procurava equilíbrio na balança comercial então afetada pelo petróleo. Seu primeiro avanço foi na região Centro-Oeste.
A soja chegou hoje ao Cerrado do Maranhão e do Piauí. No seu rastro novas relações sociais apareceram, antigas foram dissolvidas. As relações com a pequena propriedade , com a agricultura familiar e com outros cultivos foram também fortemente afetadas . No campo da sustentabilidade e da preservação do meio ambiente um novo cenário criou-se com ela, exigindo criatividade e inovação. As mudanças climáticas acrescentam também uma incógnita importante a esse universo daqui para a frente.
A ocupação mais recente de vastas áreas do Cerrado do Maranhão não se inicia com a soja, mas o fato dela repor decisivamente a economia maranhense, juntamente com a mineração, nos canais internacionais de comércio, faz dessa ocupação uma nova economia que se vincula também com a do Piauí ao proporcionar também um mercado interno de derivados da soja, alcançando o Norte do país. A Ordem dos Economistas do Brasil quer dar aos seus associados e a seus leitores uma informação desses movimentos recentes, em especial para os leitores que normalmente não acompanham mutações que estão ocorrendo longe do seu dia a dia mas que sensibilizados pela questão da sustentabilidade necessitam de dados para assumir posições e formular julgamentos adequados sobre essa premente questão que alcança a todos.
A Ordem dos Economistas do Brasil, que já levou recentemente aos seus leitores um panorama do Piauí sobre essa questão, apresenta agora o cerrado maranhense através de parte do trabalho coordenado por Marcelo Sampaio Carneiro. Agradece a Sergio Schlesinger e a Fase Solidadridade e Educação pela facilitação desta publicação.
Estamos à disposição para o eventual atendimento dos leitores que venham a se interessar por outras partes do trabalho.
A ECONOMIA DA SOJA NO ESTADO DO MARANHÃO
.1. O PROCESSO DE EXPANSÃO DA PRODUÇÃO SOJÍCOLA
A expansão da sojicultura, enquanto cultivo de larga escala no Maranhão, é um processo de período recente. Remonta a 1978 o primeiro indicador de produção de soja a constar nas estatísticas da Produção Agrícola Municipal do IBGE. Nesses anos foram produzidas 55 toneladas, para uma área colhida de 32 hectares3. Será nos anos noventa que a produção sojícola ganhará impulso definitivo (Quadro 2), concentrando-se inicialmente na mesorregião sul maranhense, mais precisamente nos municípios de Balsas, Riachão, Tasso Fragoso, S. Raimundo das Mangabeiras e Sambaíba. Nos últimos anos do século XX, a produção sojícola se consolida no sul do Maranhão e avança para outras regiões do estado, principalmente para o centro4 e o leste maranhense (ver Figura 1). 3 Como mostra o trabalho de PAULA ANDRADE (2007), nesse momento os chamados gaúchos irão se dedicar à produção de arroz mecanizado no sul do Maranhão. 4 Nessa mesorregião a produção de soja concentra-se nos municípios de Grajaú, Formosa da Serra Negra, Fortuna e Fernando Falcão.
81 QUADRO 2
EVOLUÇÃO DA PRODUÇÃO DE SOJA NO MARANHÃO, SEGUNDO AS PRINCIPAIS MESORREGIÕES (EM TONELADAS)
ANOS Maranhão Sul Leste Centro Oeste 1990 4.176 4.176 - - 1991 8.037 8.037- 1992 24.029 24.029 1993 87.370 86.389 1995 162.375 162.303 1996 137.283 137.283 1997 221.535 221.289 1998 290.438 290.189 1999 409.012 405.248 2000 454.781 448.359 2001 491.083 482.274 2002 561.718 552.344 2003 660.078 637.289 2004 903.998 863.793 2005 996.909 943.904 2006 931.142 824.759
Fonte: Produção Agrícola Municipal (IBGE).
A expansão para o leste maranhense começou na década de 1990, mas só se consolidará no final dessa década, como explica o Presidente da Associação dos Produtores Agrícolas do Cerrado Leste Maranhense (APACEL): “Eu faço parte de um grupo de agricultores que se deslocaram do Sul no início dos anos noventa (...). Essa região viveu o primeiro período que foi um período de muitas dificuldades (...). Isso fez com que boa parte desses agricultores acabasse voltando pra sua região de origem ou foram para outras regiões. Mas ficou aqui um grupo expressivo e esse tipo de agricultura ficou em estado latente até o ano 95, até 98 precisamente, quando finalmente se viabilizou o plantio de soja aqui na região.” (Entrevista realizada em 12.03.2008) Enquanto a produção no sul do Maranhão alcança níveis que já justificam a abertura de unidades de processamento de soja, a expansão recente da lavoura da soja para o leste maranhense – em 2006 essa mesorregião foi responsável por 10% do total plantado no Maranhão – fez com que essa região fosse eleita pela mídia nacional como uma nova fronteira da produção de soja no Brasil , . 5 Cf. matéria “Soja consolida avanço no Nordeste”, http://www.estado.com.br/editorias/ 2006/03/26/eco73271.xml.
A AGRICULTURA FAMILIAR DA SOJA NA REGIÃO SUL E O MONOCULTIVO NO MARANHÃO 82
Figura 1

MAPA DO ESTADO DO MARANHÃO COM MESO
E MICRORREGIÕES HOMOGÊNEAS
potencial esse destacado pelo presidente da APACEL, Vilson Ambrósio,
como correspondendo a cerca de duzentos mil hectares, espalhados pelos
seguintes municípios:
“A área agricultável dessa nova fronteira agrícola, vocacionada para a produção
mecanizada de grãos (soja, milho, arroz) estende-se por 12 municípios:
Chapadinha, Buriti, Anapurus, Mata Roma, Brejo, Santa Quitéria, Milagres,
São Bernardo, Magalhães de Almeida, Urbano Santos, São Benedito do Rio
Preto e Água Doce do Maranhão. Outras áreas na região (incluindo Barreirinhas),
por causa do solo arenoso são incompatíveis com qualquer produção
agrícola”.(http://www.correiodosmunicipios.com.br/Pagina1446.htm)
PARTE 2 | A ECONOMIA DA SOJA NO ESTADO DO MARANHÃO
83
No quadro a seguir (Quadro 3) apresentamos os municípios que possuem a
maior área plantada com soja no leste maranhense. Nele destacam-se seis municípios
que integram a microrregião homogênea de Chapadinha (Anapurus,
Brejo, Buriti, Chapadinha, Mata Roma e Milagres do Maranhão) e o município
de Magalhães de Almeida, que faz parte da MRH do Baixo Parnaíba.
QUADRO 3
ÁREA PLANTADA COM SOJA DOS PRINCIPAIS MUNICÍPIOS
PRODUTORES DE SOJA NO LESTE MARANHENSE (2006)
Área Plantada Quantidade Produzida
Municípios (em hectares) (em Toneladas)
Anapurus 4.379 14.976
Brejo 7.920 26.611
Buriti 7.383 23.920
Chapadinha 1.380 4.306
Mata Roma 2.670 8.010
Milagres do Maranhão 950 3.135
Magalhães de Almeida 1.480 4.972
Fonte: Produção Agrícola Municipal (IBGE)
Por força do ritmo dessa expansão, a soja in natura figura entre os
principais produtos exportados pelo estado do Maranhão, ficando atrás
apenas de três commodities minerais (ferro-gusa, minério de ferro e alumínio),
respondendo em média por 14% do valor anual das exportações estaduais
nos últimos nove anos.
No Gráfico 1 e no quadro 4, apresentamos as informações da Secretaria
de Comércio Exterior (SECEX) para as exportações de soja. Nesse período, de
1999 a 2007, o valor das exportações quase quadruplica, saindo de US$ 65,4
milhões (em 1999) para US$ 235,16 milhões (em 2007). No que concerne à
quantidade exportada, a evolução é menor, passando de 358.728,4 toneladas
(em 1999) para 841.943,6 (em 2007).
Vale ressaltar o aparecimento recente na pauta de exportações de outros
produtos do complexo soja, caso da semente de soja e do bagaço de soja.
A presença deste último na pauta de exportação ocorre somente em 2007 –
com 123.318 toneladas – o que explica a redução do volume de vendas de
soja in natura de 2006 para 2007.
No gráfico 2, indicamos os principais exportadores de soja presentes no
estado do Maranhão, segundo a ordem de grandeza do volume e valor exportado
para o ano de 2007. Destaca-se nesse ranking a forte presença de duas
A AGRICULTURA FAMILIAR DA SOJA NA REGIÃO SUL E O MONOCULTIVO NO MARANHÃO
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multinacionais, caso da Cargill Agrícola S/A e Bunge Alimentos S/A, controlando
61% do valor total exportado; de joint ventures como a Multigrain6
(Multigrain S/A e Multigrain Comércio, Exportação e Importação), e de empresas
nacionais como a ABC INCO S/A (do grupo Algar), CEAGRO
Agronegócios, Fazenda Parnaíba S/A, SLC Agrícola S/A e Weisul Agrícola Ltda.).
GRÁFICO 1
EVOLUÇÃO DAS EXPORTAÇÕES DE SOJA DO MARANHÃO
QUANTIDADE E VALOR – 1999 A 2007

GRÁFICO 2
PRINCIPAIS EMPRESAS EXPORTADORAS DO COMPLEXO SOJA
MARANHÃO, 2007

6 Segundo matéria do jornal Valor Econômico (31.08.2006), a Multigrain S/A é uma joint
venture formada pela trading brasileira Multigrain e pela cooperativa norte-americana CHS em
agosto de 2006 (cf. http://www.valoronline.com.br/valoreconomico/285/agronegocios.html).
A Secretaria do Comércio Exterior não informa o destino das exportações
estaduais por produto, de forma que não temos como saber para onde
o conjunto da soja produzida no Maranhão é exportada. Entretanto, a
partir do levantamento do destino da produção exportada pelo município
de Balsas, podemos inferir o mercado consumidor da soja (e derivados)
exportada. Para o período de 2004 a 2007, a Ásia e a União Européia se
alternam na condição de principal região de destino, com grande destaque
para as importações chinesas (Quadro 4).
QUADRO 4
PRINCIPAIS REGIÕES E PAÍSES IMPORTADORES DA SOJA
PRODUZIDA NO MUNICÍPIO DE BALSAS – 2004 A 2007
(PARTICIPAÇÃO PERCENTUAL)
2004 2005 2006 2007
Ásia 72,99 62,56 17,61 61,74
China* 14,38 59,67 15,84 59,91
União Européia 21,34 35,72 81,75 36,51
Mercosul 0,40 0,06 0,40 0,77
Estados Unidos 0,00 1,31 0,00 0,52
Demais Blocos 5,27 0,35 0,24 0,46
(*) As importações chinesas estão incluídas no total da Ásia.
Segundo o presidente da APACEL a soja plantada no leste maranhense
também tem o mercado interno como destino, com o envio de cerca de
20% do total produzido para a indústria de farelo e de óleo localizada no
estado Ceará7.
“É ali que tá o segredo, o objetivo nosso, inclusive da região, de tentar
atrair a indústria voltada ao mercado interno, porque nós não temos problema,
nós não viemos aqui pra exportar, nós viemos aqui pra produzir.
O Nordeste, com os seus quarenta ou cinqüenta milhões de habitantes, é
ávido por proteína. Proteína animal, principalmente. Então, a parte do mercado
interno é toda ela... nós temos vinte por cento hoje de nossas vendas
de soja, nós... isso no mercado interno.” (Entrevista com Vilson Ambrósio,
realizada em 12.03.2008)
7 Segundo matéria publicada pelo jornal Gazeta Mercantil (Ceará começa a primeira
colheita da safra de soja irrigada, 24/07/2003) somente 32 empresas associadas à
Associação Cearense de Avicultura Aceav) consomem anualmente 300 mil toneladas de
milho e 180 mil toneladas de soja (grão e farelo). A soja consumida é adquirida
principalmente nos estados do Piauí e Maranhão. |